Há 100.000 portugueses para atender
Vindo de Moçambique, José Rosa chegou ao Luxemburgo há 4 meses e deparou-se com um cenário de muito trabalho e poucos funcionários.
Com 20 anos de carreira diplomática, José Eduardo Carvalho Rosa chegou ao Luxemburgo no dia 20 de Novembro para substituir Cristina Almeida no Consulado-Geral de Portugal no Luxemburgo. "Em 1990 entrei para a carreira diplomática. Em consulados só estive na Beira, Moçambique. Antes estive em embaixadas". E é o trabalho na embaixada em Angola que o cônsul mais recorda. "Em Angola acompanhava a política interna, a política bilateral, as relações com os partidos locais, sobretudo com o MPLA, acompanhei o processo de paz angolano na sequência da assinatura do protocolo de Losaca, em Novembro de 1994", recordou José Rosa.
Casado e com três filhos, a família sempre o acompanhou nas suas missões diplomáticas, excepto da primeira vez que saiu de Portugal, quando foi para Angola. "Sendo um país que estava em guerra e que não era seguro, deixámos as nossas filhas mais velhas em Portugal com os avós. Tendo uma treze anos e outra quatorze não podíamos enjaula-las em casa nem deixá-las sair à vontade. Não era [um país] próprio para raparigas daquela idade", contou.
José Rosa tem ainda um filho, com treze anos.
Consulados diferentes, missões diferentes
Apesar da sua já experiente carreira diplomática, José Rosa enfrenta um novo desafio no Consulado-Geral de Portugal no Luxemburgo uma vez que, como observou, o trabalho é muito distinto daquele que tem realizado. "O consulado da Beira tinha jurisdição sobre uma área enorme de Moçambique. Estamos a falar de uma área de quase quinhentos mil km2 e onde existiam apenas uns 4.500 portugueses. No consulado, o movimento era proporcionado sobretudo por moçambicanos à procura de vistos e reconhecimento de assinaturas. Isso dava-me margem para sair do consulado".
Ainda há uns meses José Rosa ia "visitar empresas de portugueses e acompanhava investidores portugueses, grandes empresas como a Galp Energia, a Portucel, a Martifer que queriam investir em Moçambique e que queriam ser apresentados às autoridades do país. E eu fazia esse trabalho. Era muito interessante! Fazia ali um papel que agora se diz de diplomacia económica".
Em contrapartida, no consulado no Luxemburgo "é uma 'invasão' de portugueses, todos os dias, porque são 100.000 portugueses que precisam de bilhetes de identidade, passaportes, certidões de nascimento, de óbito, procurações, que se querem casar, aquisição de nacionalidade, perda de nacionalidade, etc. Somos uma espécie de loja do cidadão para 100.000 portugueses e só com 11 funcionários e alguns desses funcionários não são sequer do atendimento", disse.
Muito tempo de espera
Apesar do consulado ter mudado de instalações, continuam a existir muitos ecos relativos ao mau atendimento consular. O cônsul considera antes que "há um mau atendimento mas no sentido de as pessoas esperarem muito tempo para serem atendidas". O tempo de espera pode, contudo variar: "Se são prioritários (crianças, doentes, idosos e mulheres grávidas), esses são atendidos mais rapidamente", contou José Rosa alertando para a existência de "um sistema que vai chamando as pessoas para as mesas de atendimento" e que dá preferência aos prioritários. Uma situação que causa muitas vezes descontentamento porque "começam a ver passar gente à frente", explicou.
Mas a culpa, assegura, não é dos funcionários que são "esforçados" e "dedicados". O problema? "Temos muito poucos funcionários".
Segundo o cônsul, o mau tempo que este ano se fez sentir e encerrou a construção durante mais de dois meses, "agravou a situação", porque "na construção pública, 90% são portugueses e estando parados vinham aqui tratar dos seus papéis. 'Caiu-nos', portanto, muita gente no consulado". A solução foi "estender" as horas de atendimento até às 4 da tarde "mas gente que chegava às 9 da manhã podia só ser atendida às três da tarde".
José Rosa fez as contas e concluiu que "entre o dia 3 de Janeiro e 3 de Março, atendemos 7.200 pessoas. Isto vai dar 165 pessoas por dia". Um número muito elevado tendo em conta que "o núcleo duro [do atendimento] são, neste momento, 5 pessoas".
O consulado está, no entanto, nesta altura a proceder à selecção de 4 novos funcionários. Porém, o cônsul considera que 4 pessoas não serão ainda suficientes para "resolver" o problema.
José Rosa revolta-se contra alguns comentários feitos em duas páginas do Facebook (Uma “Contra o atendimento do Consulado-Geral de Portugal no Luxemburgo”, outra “Contra o péssimo atendimento do Consulado-Geral no Luxemburgo”) que atacam os funcionários. "Já reparei que alguns dos comentários feitos são dirigidos aos funcionários, acusando-os de trabalharem pouco, de serem mal-criados. Não vi ainda ninguém ser mal-criado e trabalharem pouco é que não é de todo verdade porque trabalham que se desunham. Trabalham muito... e, nestas condições de falta de pessoal, têm de tentar atender tanta gente como as que eram atendidas há um ano, quando existiam mais três pessoas". Logo, "enquanto não admitirmos mais gente não há nada a fazer", e sugere a realização de "baixos-assinados a pedirem mais funcionários para o consulado. Um abaixo-assinado construtivo dirigido às autoridades portuguesas".
José Rosa vai formar um Conselho Consultivo
A fim de desenvolver um trabalho mais adequado às necessidades da comunidade, José Rosa revelou que irá criar o Conselho Consultivo do Consulado. "Em breve será criado um Conselho Consultivo do Consulado com alguns elementos da comunidade portuguesa que eu escolherei e que virão com novas ideias e propostas".
Em matéria social, o cônsul diz-se ainda preocupado com "questões como o desemprego" ou questões como a "educação e a formação profissional".




del.icio.us
Digg
Poste seu comentário