ATP: 20 anos de luta em prol do doente psíquico
Bernadette Rodrigo é psicóloga e responsável de direcção do ATP - Schierener atelier e reconhece uma falta de informação na sociedade relativa à doença psíquica.
CORREIO: Como é que surgiu a ideia de criar a Associação de ajuda a pessoas psicóticas pelo trabalho terapêutico (ATP a.s.b.l)?
Bernadette Rodrigo: Eu trabalho na ATP há 3 anos e como a ATP festejou o ano passado 20 anos, não sei exactamente como ela foi criada. Nós dispomos de ateliers terapêuticos para pessoas que sofrem de doenças psíquicas. Suponho que a ideia de criação da associação surgiu no âmbito da integração de pessoas com doenças psíquicas na sociedade, mais concretamente na vida quotidiana e de lhes fornecer um ritmo de vida. A doença psíquica tem recaídas, o que significa longos períodos de hospitalização e medicação, sendo que as pessoas com este problema dificilmente podem entrar no mercado de trabalho. A doença psíquica tem altos e baixos e para que essas pessoas possam justamente ter uma valorização e um quotidiano, a ATP surgiu para lhes dar essa oportunidade. A diferença entre nós e o primeiro mercado de trabalho é que aqui o trabalho adapta-se à pessoa e não a pessoa ao trabalho, o que quer dizer que se a pessoa só puder trabalhar 4 horas por dia, só trabalha essas horas. A pessoa pode ir ao médico, fazer terapia ou tratar de assuntos pessoais no seu tempo livre.
CORREIO: Existe um grande número de pessoas com problemas mentais que se dirigem à ATP?
B.R.: Notamos uma certa afluência, dependendo dos locais. A ATP está localizada em Schieren, Walferdange, Ettelbruck e Hellange. Em relação a certas actividades, temos até uma lista de espera com pessoas que querem entrar.
CORREIO: Existe um número elevado de pessoas com problemas mentais?
B.R.: Sim, existe um grande número de pessoas candidatas a emprego com problemas mentais no Grão-Ducado, entre as quais estão portugueses.
CORREIO: O mercado actual está sensibilizado para ajudar estas pessoas?
B.R.: A doença psíquica é ainda uma doença que constitui tabu na sociedade. Quando no jornal lemos um artigo sobre um doente psíquico que fugiu da clínica, apenas se relata um caso de extremidade. No entanto, um doente psíquico não é mais agressivo que a população em geral. É verdade que a doença psíquica mete medo, mas trata-se apenas de fazer desaparecer o tabu e explicar o verdadeiro significado da doença que não é um “bicho-de-sete-cabeças.
CORREIO: Quais são as empresas que estão mais abertas a contratar pessoas com problemas mentais?
B.R.: Não lhe sei dizer, porque a ATP acabou de criar um novo serviço, o JOB COACHING, que tem tido muita procura, mas como é um serviço recente, ainda nem fez sequer dois anos, é necessário em primeiro criar laços ou parcerias com as empresas. Neste serviço existem apenas 2 pessoas que trabalham neste sentido, um psicólogo e uma secretária. Todavia ainda não existe um balanço deste serviço neste tempo em que actuou.
CORREIO: Aquando o primeiro contacto com as empresas, acha que as luxemburguesas são mais abertas a contratar este tipo de pessoas do que as portuguesas?
B.R.: Essa é uma questão bastante complicada de responder, na medida em que não vejo directamente um efeito de comparação. Nós dirigimo-nos às empresas luxemburguesas, às grandes empresas. Dirigimo-nos essencialmente aos estabelecimentos administrativos, mais concretamente às comunas que têm também a “obrigação” de contratar estas pessoas.
CORREIO: Sabemos que as pessoas com problemas psíquicos têm necessidade de serem acompanhadas no primeiro mercado de trabalho, sendo assim a ATP criou os ateliers. Que tipo de actividades são desenvolvidas nestes ateliers?
B.R.: As actividades variam consoante o local. Por exemplo no Schierener Atelier, em Schieren, dispomos de uma cozinha, onde preparamos refeições para as pessoas que trabalham aqui. Fazemos entrega das refeições nas cantinas escolares e a pequenas empresas na região, sendo que as pessoas do exterior podem igualmente vir aqui comer o prato do dia. Temos um atelier de tapeçaria que é especializado na restauração de cadeiras e de sofás. Temos um outro atelier que é mais manual, nomeadamente, fazemos o preenchimento de documentos, metemo-los nos envelopes e enviamo-los. Já em Ettelbruck, o Haff Ditgesbaach, tem actividades mais orientadas para a natureza. Eles têm igualmente uma cozinha, mas apenas para os que lá trabalham. Fazem a produção de produtos biológicos. Têm uma quinta com 18 hectares e um jardim, onde recolhem produtos para a confecção de compotas, de vinagre, molhos, etc. Têm uma loja onde colocam à venda os produtos que recolhem do campo e estão igualmente presentes duas vezes por semana no mercado local. Tem também um atelier de velas e um de carpintaria.
CORREIO: Têm muita procura destes produtos?
B.R.: Embora estejamos aos poucos a dar-nos a conhecer, temos clientes regulares que sabem de onde vêm os produtos, portanto temos uma procura razoável dos nossos produtos.
CORREIO: As actividades nos ateliers são remuneradas?
B.R.: A associação funciona em duas partes. De um lado temos a componente terapêutica onde as pessoas possuem já um rendimento, como o RMG ou uma pensão de deficiente. No outro lado temos os que trabalham nos “ateliers protegidos” e têm um contrato de trabalho fornecido pela ATP.
CORREIO: Qual é a faixa etária proeminente?
B.R.: Dependendo da actividade de cada atelier pode-se dizer que há um pouco de tudo. Temos presentes jovens, mulheres, homens e pessoas idosas.
CORREIO: As pessoas com problemas mentais conseguem realizar as actividades sozinhas ou necessitam de acompanhamento?
B.R.: Embora haja uma pessoa responsável por cada atelier, as pessoas têm uma certa autonomia na execução dos seus trabalhos.
CORREIO: Os colaboradores da ATP têm algum tipo de formação adaptada a cada tipo de pessoa?
B.R.: Não temos pessoas adaptadas aos deficientes. Temos pessoas especializadas na arte de cada atelier. O nosso objectivo é tentarmos estar o mais próximo possível de um trabalho normal.
CORREIO: Quais são os critérios exigidos para entrar na ATP?
B.R.: Para entrar na ATP é necessário apenas que tenha uma doença mental, como as depressões, etc, e tem que ter pelo menos 18 anos.
Vera Fernandes




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